Poesias, crônicas, contos e dramaturgia escritas por: Geraldo Bernardo, tendo como cenário o sertão, seus personagens e mitos.


Sousa-PB, 
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QUAL É O SEU LUGAR?

Escrito por : Geraldo Bernardo em quarta-feira, 13 de setembro de 2017 | 6:59 AM



Ela não sabe se me olha nos olhos ou baixa a vista. Indecisão besta.
Então eu olho firme, com cara de mal, para ela se ligar quem manda nesta relação:
- Qual é o seu lugar?! Pergunto em voz alta. Independente de estar na presença até do Papa.
Muda, ela recolhe-se ao seu cubículo.
E assim é que tem que ser. Esse negócio de conversa amena, tem isso comigo não. Eu mando ela obedece, é a lei natural. Deus criou o mundo assim, qualquer coisa, reclamem lá com Ele.
Ela sabe o lugar dela na nossa relação, não reclama e, além disso, ela sabe que além de respeitar ela deve me agradar, as vezes é até chato:
- Feche essas pernas... Já tive que dizer várias.
Será tão difícil para ela compreender que estou cansado. Que não tenho tempo para desfrutar o prazer de algum carinho?
Certas vezes fica com aquele olhar pidão. Finjo que nem é comigo. Não gosto de ficar dando atenção toda hora, vicia.
“Naqueles dias” fica só deitada, acho que as cólicas que a derruba. Passo perto dela e só consigo um fiapo esgueirado de olhar. Um fungado curto, como se quisesse dizer: - chato!
Quando ela está quieta, sem querer dengo, então me aproveito, faço todos os agrados, chamo até pelo nome.
De uma coisa tenho certeza, sou quase um Deus para ela. E, quanto mais ela se agarra em mim, vindo cheia de fungados, de carinhos, mais, sinto uma vontade quase sádica de perguntar-lhe, com gritos de feitor.
- Qual é o seu lugar?! - E vê-la desconfiada, cabisbaixa indo esconder-se em seu cubículo. É uma cena que me enche de poder.


ASSOVIO DE CHAMAR VENTO

Escrito por : Geraldo Bernardo em segunda-feira, 4 de setembro de 2017 | 4:15 PM



Cresci colhendo no campo
Arroz, algodão e alfavaca.
Tomando leite de vaca
Antes de pegar no trampo.
Assistindo os pirilampos
Projetar grande invento
Eu tinha deslumbramento
Era escravo da fantasia.
Pra mim aquilo parecia
Assovio de chamar vento.

O milho ao ser debulhado
Traz junto alguma sujeira.
O feijão da mesma maneira
E o arroz mesmo pilado
Sempre fica misturado
Alguma palha ou fragmento.
A “arupemba” é o instrumento
Usado para a separação
Com jeito certo, direção
E assovio de chamar vento.

Vozinha, minha mãe e meu pai
Ensinaram-me a invocar,
Com harmonia fé e longo assobiar,
O vento que passando vai.
Em meio a seca nem folha cai.
Com força e pensamento
E a energia do momento.
Fico de olhos fechados
E flui nos lábios molhados
O assovio de chamar vento.

A cigarra não sabe imitar,
A ciência finge que não vê.
Para não explicar o porquê
Do ser humano domesticar
O vento, com um longo assoviar.
Sem algum planejamento,
Sem hélice ou encanamento.
Porém, coração e alma boa
É só o que fornece a pessoa
O assovio de chamar vento.

Não sei se a tal Inquisição
Combateu esse sortilégio.
Sei que tenho o privilégio
De ser de uma geração
Que domina a direção,
Ao seu inteiro contento,
Duma carreira de vento.
Quando eu sair deste mundo.
Quero levar o vagabundo
Assovio de chamar vento.






A PRIMEIRA VEZ DE CLARINHA

Escrito por : Geraldo Bernardo em quinta-feira, 31 de agosto de 2017 | 6:16 AM




Ela com aquela mãozinha tão delicada, o esmalte tão vermelho quanto o batom, a pele tão clarinha. Disse-lhe:
- Clarinha, segure firme. Tenha cuidado que a coisa dá sopapos.
Basta! Ela olhava apreensiva, mas fazia um risinho no canto do lábio para dizer que estava tudo bem.
Meu bem, eu não sei se você devia fazer isto. Disse-lhe querendo tirar o troço das mãos. Mas, ele estava determinada, queria fazer aquilo de qualquer maneira.
- Para tudo tem uma primeira vez, não tem? Melhor que você me ensine do que qualquer um destes machos grossos.
Eu olhava aquele rostinho tão angelical. Tinha dezoito já completos? Perguntava-me silenciosamente.
- Então tá! Vou te explicar tudo de novo. Segure firme, bastante firme. Tenha cuidado com o vai e vem, pois, ela sai do prumo e geralmente pega pra esquerda.
Enquanto eu dava as instruções percebi que ela arfava. A emoção era grande, o coração pulsava forte, dava quase para o ouvir o “tum... tum”.
- Primeiro encoste no lugar certo, depois vá forçando devagar até fazer a abertura necessária. Cuidado com o resvalo, as vezes sai de um buraco e quer entrar noutro.
Ela seguia todos os passos que eu lhe ensinava. E eu também ajudava, segurando levemente seu antebraço e ajudando-a a guiar o instrumento.
- Viu! Não é difícil. Basta querer que você consegue Clarinha. Afinal a primeira vez nunca é fácil; que bom que você me escolheu para fazermos juntos.
Clarinha tão delicada, tão menina, os cabelos tão perfumados e um cordão de ouro fininho com uma bailarina como pingente, sorria e me deixava guiá-la naquela função.
- Até aqui você foi bem, meu bem. Agora prepara-se que depois do rompimento então é aquela sujeirada toda, mas, não se espante, a gente limpa tudo depois.
Ela parecia em êxtase com a experiência. Nada dizia, só arfava e olhava-me com ar espantado e maravilhada.
E assim foi que ensinei a Clarinha a cortar a cerâmica com serra elétrica e trocar a torneira da pia.





A CHAVE

Escrito por : Geraldo Bernardo em terça-feira, 29 de agosto de 2017 | 6:41 AM



Deus na sua magnitude
E mais completa compaixão,
Antes de Eva deu mulher à Adão.
O Onipotente via a saúde
E seu pupilo tinha atitude
De um cabra muito macho.
Lilith foi o seu cacho
Tinham alcova como nave
Ele sempre achava a chave
Debaixo do capacho.

Cleópatra foi grande rainha
No Egito e Roma reinou.
Sua vida cheia de esplendor
E também gente mesquinha
Que só queriam o que ela tinha.
Uma tenda perto dum riacho
Era onde sossegava facho
Com o general sem entrave.
Ela sempre achava a chave
Debaixo do capacho.

Helena, a mais cobiçada
Das rainhas da Grécia Antiga.
Estopim de grande briga
Que ainda hoje é esmiuçada
Pela história passada.
Em Páris botou barbicacho
Nem precisou despacho.
Em Esparta, livre tal uma ave
Ela sempre achava a chave
Debaixo do capacho.

Importa comportamento?
Ter vivido comedido?
Se mais nos apraz o proibido.
Quem com consentimento
Vive o mundo modorrento
Está sempre por baixo.
A morte vem sem cambalacho,
Sem tranca ou qualquer entrave.
Ela sempre vai achar a chave
Debaixo do capacho.











SOBRE FRUSTRAÇÃO E VITÓRIAS

Escrito por : Geraldo Bernardo em quinta-feira, 3 de agosto de 2017 | 3:37 AM



Poetar para mim é sina.
Minha pena neste mundo
É mergulhar bem fundo
Não em mar azul turmalina,
Mas, no cascalho da mina.
Revirar o rico lixo
Com minha avidez de bicho
Querer escombros reciclar.
Obra que nunca vai findar
E que a tomei por capricho.

Já fui jovem e arrogante
Pensei que pegar o fuzil
Daria um jeito no Brasil.
Hoje é uma ideia distante
Parece até um desplante
Implantar uma ditadura
Pra sair da dita dura.
Ainda bem que minha pena
Dispara bala amena
Menos fere e mais cura.

Já venci o medo e a fome
Desmascarei o preconceito.
Encaro essa dor no peito
Com riso e dou outro nome.
A essa mágoa que carcome
Toda minha cidadania.
Olho irado a vilania
Do jogo insano e impuro
Que fede tal monturo,
E quer impedir nossa ousadia.

Este monstro sujo e feio
Chama-se capitalismo.
Assassino do humanismo,
Alimenta-se do suor alheio
É falso e espalha o aperreio.
Não aprendi ser garimpeiro
Tampouco sou bom guerreiro.
Busco a pedra preciosa
Que tem a poesia e a prosa
E então ser um poeta inteiro.

É uma busca simplória
“Um desejo abobalhado”
Assim já fui achincalhado.
Mas, digo-lhe com glória
Eu posso contar a vitória
Pois já tenho vencido
Neste mundo carcomido
O pecado da enganação
E não carrego a frustração
De ser um sujeito vendido.







COMO DIRIA RAUL: “FALTA DE CULTURA PARA CUSPIR NA ESTRUTURA”.

Escrito por : Geraldo Bernardo em quarta-feira, 2 de agosto de 2017 | 11:21 AM



Não sei dizer onde mora o romantismo.
A pieguice que ouço nalgumas canções
Até causa-me náusea, enjoos e convulsões.
É imperfeito meu metabolismo?
Não encontro respostas no psiquismo.
Porém, sei que não nasci insensível,
Eu talvez só saiba amar noutro nível.
Sei amar o canto da passarinhada
O sol surgindo no sumir da estrada
Mas, acho Marília Mendonça horrível.

O tal sertanejo universitário
Que se curte na rua e na balada
Para mim não tem valor de nada.
Podem me chamar de velho otário
Dizer que sou babaca sectário
Mas, não encontro sentimento nem arte
Conceituo produto de descarte
A indústria cultural da burrice.
Tanto quanto concurso de miss.
Deste universo não faço parte.

Sinto-me deveras incomodado
Quando saio a noite para conversar,
Bater papo com amizade em algum bar
E encontro alguém tocando esgoelado,
Das paradas, o sucesso afamado
Dá tristeza de se ouvir e de se ver.
Sei que há tanta coisa boa a acontecer
E tanta arte sem ter na mídia espaço
Para aplacar minha ira o que faço?
Pra certas gentes não pago couvert.

Falei da música descartável
Mas, há mau gosto na literatura
No teatro, dança, até na pintura.
Este produto desagradável
É fruto da educação lastimável.
A escola fica da arte distante,
O recreio e a data comemorativa
Não produz atividade criativa
E propala a idiotice a todo instante.

E quem achar que só falo por ser antigo
Talvez esteja fugindo ao debate.
Não sou apenas aquele cão que late
Digo sem temer o tamanho do perigo
Penso, logo, sei o que escrevo e digo.
Tem funk bom, assim como tem funk ruim
Poderia citar uma lista sem fim
Tantos artistas fazendo coisa boa
Que a mídia exclui, tudo isto me enjoa.
Quem se opor ao que digo, escreva pra mim.







ORIGENS

Escrito por : Geraldo Bernardo em terça-feira, 1 de agosto de 2017 | 3:14 AM



Nasci lá, num sovaco de serra
Conhecido como Logradouro.
Nascer ali pra mim foi um tesouro.
Aprendi desde cedo lavrar a terra
Alegrar-se com o bezerro que berra.
Onde nossos nativos viveram um dia
Antes da invasão e de virar sesmaria
Nas mãos de assassinos portugueses
Gananciosos criadores de reses
Que vieram trazendo sua escravaria.

Sou fruto do sertão paraibano
Sobrevivente e miscigenado.
Primogênito de pai explorado
Pela meia da colheita a cada ano.
Minha mãe era quem costurava o pano
Da rica roupa do esnobe patrão
Comprado com o ganho da exploração.
As mãos de meu pai eram fartas em calo
Mas, o coronel vivia no regalo
Usufruindo da riqueza do algodão.

Meu pai nunca foi alfabetizado
Mas, tinha noção do seu direito.
Vivia mudando-se de eito em eito.
Nunca foi um sujeito acomodado
Trabalhava de sol a sol no alugado;
Fazia tijolos, queimava caieira
Mas, sempre acabava em bebedeira.
O refúgio de negros, pobres ou nobres
Que, sem rima, sem métricas e cobres
Os iguala uma pinga de primeira.

Quando menino perambulei
Pela: Varjota, Caiçara e Estreito
Não havia doce picolé ou confeito;
Na Malhada Grande quase afoguei
E de novo ao Logradouro voltei.
De brincadeira só enxada tinha
E meu lanche era um pirão de farinha.
Meu pai e minha mãe doze geraram
Inanição e sarampo seis levaram
pra cova rasa como madrinha.

Relato, talvez, uma poesia amarga
Ao falar de meu tempo de criança.
Só quero ser honesto com a lembrança
E nem desejo maldizer esta carga.
Pois, a miséria que vivi mais alarga
O meu jeito de na vida proceder.
Pois, aprendi que na essência não é só o ter
Que o mesmo sem luta não tem valor.
Pois, se sou artista, poeta e lutador
Foi a estrada a maior lição do meu viver.


Aparecida

Escrito por : Geraldo Bernardo em sábado, 22 de julho de 2017 | 9:36 AM





Fez de mim gato e sapato.
Riu quando eu lhe escrevi o primeiro poema. Quando fiquei triste e chorei, beijou-me a boca e esfregou os peitos na minha cara, disse que gostava de homem intelectual e que me amava. Porém quando pensei que tudo estava resolvido, passou sorrindo de braço dado com Arnóbio de Mariquinha. Aquilo me deu um ódio.
Desisti daquela doida. Então ela começou a me telefonar, me fazendo crer que estava arrependida e que tudo não tinha passado de uma infantilidade. Passava horas e horas no telefone. Chorava em público quando me via passar. Tudo fingimento, para que as amigas viessem me contar. E eu de besta fui atrás dela. De novo. E levei rasteira, para largar de ser besta.
Foi por isso que comprei a faca.
Quando ela passou no beco por trás da igreja, puxei-a pelos cabelos, lhe tapei a boca, encostei a faca na garganta dela e fui rasgando a roupa, lhe chupei os peitos e disse que ela tinha que me dar.

Depois fiz o que fiz e não estou arrependido.

(Do livro MEU AMIGO PEDRO. Disponível no site: href=" …"><img alt="Compre aqui o livro 'Meu amigo Pedro'")

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