Poesias, crônicas, contos e dramaturgia escritas por: Geraldo Bernardo, tendo como cenário o sertão, seus personagens e mitos.


Sousa-PB, 
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RESPOSTA DE MATUTO

Escrito por : Geraldo Bernardo em domingo, 19 de agosto de 2018 | 9:43 AM




Por trás do birô indaga,
um homem menor que a gravata.
- Responda-me na lata
Quem é o teu pai? Quem te afaga?
O que queres nesta plaga?
Com certo ar de zombaria
e as feições de quem tripudia
da minha beradeirice.
Porém, a minha matutice
responde em forma poesia.

Não tenho mão cheia de calo
nem puxo cobra para os pés
de fonemas faço pincéis,
os versos me vêm em estalo
E digo: - Não sou vassalo,
vivo em completa alforria
não temo sua hipocrisia
tampouco sua fanfarrice.
Sou filho da matutice
untado em caldo de poesia.

Quem me afaga é a inspiração
que não tem chefe ou dono.
e o universo é meu patrono
a quem somente dou benção.
Não sou escravo de tostão
nem pratico a mais-valia
e tenho o instante como guia.
Há quem até ache isto tolice,
mas, na minha matutice
existe fartura de poesia.

Destas plagas só espero
pão, trabalho e amizade
viver com liberdade,
respeito e ser sincero.
Mais do que isto até quero,
você vai chamar utopia,
mas, a riqueza eu dividia
sem que antes alguém pedisse,
tal partilho a matutice
com quem gosta de poesia.

Se não respondi a altura
ao que me foi perguntado,
se não foi do seu agrado
ferindo sua cultura.
Entenda logo criatura:
na terra tudo é fantasia
e ela é quem vai nos engolir um dia.
Não é por que alguém me disse.
É que estudei a matutice
com a professora poesia














SENTIMENTO DE VINGANÇA

Escrito por : Geraldo Bernardo em domingo, 12 de agosto de 2018 | 7:44 AM



           

Galdino Bernardo da Silva, um homem!
Era meu pai, cidadão, trabalhador,
Iletrado, um matuto sonhador.
Por sua memória muitos ainda sofrem
e o que aqui digo aqui talvez nem gostem.
Sincero! Com ele não havia enrolação
Não gostava de fricote ou babação
De paz e de bem só ofendia ao que comia.
Se fosse vivo, seria uma alegria
Mas, hoje só me resta dor e indignação.

Foi no dia dezesseis de novembro
Do ano mil novecentos e noventa e um,
Assassinado sem ter feito mal algum,
Do dia e da má hora sempre me lembro
Pois, é como se me faltasse um membro,
Uma bússola para dar orientação,
Um ombro forte de apoio e sustentação.
A família ficou sem prumo e sem guia.
Hoje, quem tem pai vivo, é dia de alegria.
Para mim só há tristeza e indignação.

O assassino fugiu e foi protegido
Por quem meu pai não negava voto
Os Gordos, povo a quem era devoto,
Ajudaram a proteger o tal bandido
Que fugiu de Sousa protegido
Com apoio do canalha Inaldo Leitão
Levado para as bandas do Maranhão.
Disto tudo tenho ódio, não esqueço um dia
Hoje, quem tem pai vivo, goza alegria.
Para mim só há tristeza e indignação.

Quem quiser saber se isto é verdade
Nem carece pesquisa apurada
Pergunte aos companheiros de enxada
Amigos de meu pai, o defendem com alarde.
Esta injustiça em peito é o que mais arde,
A covardia, fraqueza e grande traição
De gente por quem ele tinha devoção
E o abandonaram quando não devia.
Se para muitos, dia dos pais é alegria.
Para mim é só tristeza e indignação.

Não gosto de justiça ou advogado
Da gente só queriam ter proveito
Davi da Civil disse que dava um jeito
Mas, antes eu devia pagar-lhe adiantado
Para trazer o homicida algemado.
Alguns até acham que cometi ingratidão
Porque não vinguei com minha própria mão
sou apenas um poeta, a morte não é meu guia.
Hoje muitos vivem mais um dia de alegria
enquanto eu sinto tristeza e indignação.

Os antigos inquilinos do Doutor Zezé
Além de amigos eram também fregueses
A quem meu pai serviu inúmeras vezes
Quando um vizinho lhe indagava quanto é?
Ele dizia: qualquer coisa pro café.
Pessoa humilde, não foi preso a tostão
Pela vida só conheceu a servidão
Agricultor, oleiro e fabricante de pia
Hoje muitos vivem mais um dia de alegria
enquanto eu sinto tristeza e indignação.



NOITE LÚGUBRE

Escrito por : Geraldo Bernardo em quinta-feira, 9 de agosto de 2018 | 6:34 PM



APRESENTAÇÃO


NOITE LÚGUBRE, de Geraldo Bernardo.
Contos, 2002, 60 páginas, edição marginal, produzida totalmente pelo autor, impressa na Gráfica Real, Cajazeiras/PB, tiragem 500 exemplares. Esgotado.

Este é o livro de estreia de Geraldo Bernardo como contista. São textos escritos principalmente na adolescência do autor. Há muitas referências e influências explícitas, principalmente Hesse, Borges, Condé etc., também muito experimentalismo. Com um estilo já definido, o autor utiliza-se da linguagem fantástica para narrar sobre temas como: abandono, adultério, homicídio, pedofilia, prostituição, iconoclastia, homossexualidade, suicídio e o flagelo das relações humanas. O cenário é o sertão urbano e rural numa estética universal.

Mesmo que eu gastasse toda poesia seria pouco para lembrar a minha vó.

Escrito por : Geraldo Bernardo em domingo, 5 de agosto de 2018 | 8:18 AM


 

Ir no serrote colher barro branco
pra depois fazer pote e panela.
Tomar chá de capim santo ou canela
das touças nascidas no barranco.
Aprender a ser honesto, leal, justo e franco
compartilhar e jamais pensar em si só.
Certas lembranças dão na goela um nó.
Eu queria ter herdado a sua sabedoria.
Mesmo que eu gastasse toda poesia
seria pouco para lembrar a minha vó.

Plantou o algodão pra fiar e fazer a rede
cultivou arruda, alho, hortelã e alecrim,
fazia do mel da rapadura alfenim,
tinha imagens de santos na parede,
e fazia limonada pra matar a sede.
Ensinou-me citando o exemplo de Jó,
que viemos do pó e voltaremos ao pó,
Era uma das coisas que mais me dizia.
Mesmo que se gaste toda poesia
é muito pouco pra lembrar a minha vó.

Tinha o leve odor da palha queimada,
do seu cigarro fininho preso nos lábios.
O rosto enrugado como dos sábios.
A sua cabeleira era toda branqueada
com óleo de coco era bem tratada.
No meio da marrafa prendia o cocó.
Quem errava ia no mato cortar um cipó
e conhecia toda sua metodologia.
Ainda que eu gastasse toda poesia,
seria pouco para lembrar a minha vó.

Torrava café em caco de alguidar.
A Vigorelli num canto da sala.
Uns dois ou três vestidos numa mala
e estava sempre pronta pra ajudar,
o resguardo das noras, com elas ia ficar.
Fazia um gostoso pirão de corró.
Comida ruim ela chamava groló.
Lembro-me dela quase todo dia
e nem que eu consumisse toda poesia
era quase nada para lembrar minha vó.

Vozinha! Era assim que os netos a chamavam.
Referência moral em toda região.
Criou a filharada na maior retidão
e ao que ela dizia todos respeitavam.
No São João ou dezembro, se juntavam,
era fartura: geleia de mocotó,
bolo de arroz, tapioca e pão de ló.
Plantou-me na ideia sua filosofia
e nem se eu tentar escrever toda poesia
ainda será pouco pra lembrar minha vó.

FORRÓ DA CAGANEIRA

Escrito por : Geraldo Bernardo em domingo, 29 de julho de 2018 | 6:49 AM




Trago na minha lembrança
com ternura e emoção
um forró que fui no sertão
quando ainda era criança.
Nessa noite enchi a pança
até ficar “empererado”
como se dizia no passado.
Sentei no chão da cozinha
comi: arroz, peru, galinha
e lombo de porco assado.

Foi uma grande fartura
da qual jamais esquecerei.
Comi abacaxi que cansei.
Queijo com rapadura
comi até dar gastura.
Deram-me um pirulito
mastiguei até o palito
pois, até então eu não conhecia
aquela gostosa iguaria
que me deu tio Zé Brito.

João de Pedro Teodoro
recebia os convidados
que chegavam animados
e falava: - É aqui que moro
e agora também meu “noro”.
Era o seu modo mais tenro
de referir-se ao genro.
- Tome logo uma aguardente
que é para queimar o dente –
dizia – é só o que lhe imploro.

Era um sujeito bonachão
a todo mundo recebia
naquela enorme alegria
de encher qualquer coração.
Bonito era o pavilhão.
O chão plano e bem malhado
varrido e depois aguado,
no meio um mastro fornido
de onde saía colorido
e fitas até o telhado.

A festa estava animada
os pares dançavam e suavam
os bêbados se “escornavam”
já era alta madrugada
quando se ouviu uma zoada
até hoje ninguém entendeu
o que de fato aconteceu.
Não se foi um tal de Buranha,
que era um reformado meganha
que fez o que fez e deu o que deu.

O cabra começou a atirar
e o que foi de gente correu.
era carro cantando pneu,
o que era de mulher a gritar,
valente no chão deitar,
só se ouvia a “estraladeira “
e gente sumir na poeira.
O pior aconteceu comigo.
Tive tanto medo, meu amigo,
que me deu caganeira.












FADO

Escrito por : Geraldo Bernardo em quarta-feira, 20 de junho de 2018 | 7:25 AM





Cá estou eu, fazendo um fado
de maneira diferente,
todo rimado em sextilhas,
como se canta repente.
Podendo ser declamado
na escola ou qualquer ambiente.

Na fala de nossa gente
é sempre muito comum
dizer que fez algo por fado.
Pode perguntar a qualquer um:
“Por que fulano bebe?
“É fado! Sem motivo algum.

Fado não é coisa incomum
Ocorre a todo ser humano
É o inevitável vivido
nesse mundo e no outro plano.
Independe da vontade
traz glórias e desengano.

Se cantado por um soprano
seria triste este fado?
Mais triste que a prostituta
que traz na face o enfado?
Ou do pândego solitário
que finda abandonado?
  
Um dolente musicado
executado por guitarra
e uma lusitana cantando,
o dia já quebrando a barra,
deve ser um bom momento
para achar o fado, na farra.



















LAÇOS

Escrito por : Geraldo Bernardo em sábado, 16 de junho de 2018 | 5:55 PM





Para se conquistar alguém
só laço feito de emoção.
Laçada sem muito arrocho
laceada pela paixão.
Que laço de sentimento
não se laceia usando a mão.

É laço que laça coração,
que tem como isca o olhar.
O artifício laçador
é difícil de se encontrar
um que seja verdadeiro,
pois, é muito fácil se enganar.

Qualquer um pode até laçar
e também ser laçado
por paixão passageira
que é amor disfarçado.
Só serve pra laçar isca,
é preciso ter cuidado.

Não sendo bem manejado
o laço de laçar quem amar
pode laçar uma mágoa
e todo sentimento estragar.
Quando o laçador é laçado
é o laço correto de usar.



Doido da Matureia

Escrito por : Geraldo Bernardo em sexta-feira, 8 de junho de 2018 | 1:14 PM

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